25/06/2015

08:45

Por: Alberto Silva

Odebrecht envia bilhete pedindo “destruir e-mail” e Policia Federal pega. Veja o que continha neste bilhete.

Documento manuscrito de Marcelo Odebrecht e apreendido pela Polícia Federal, em que ele pede para "destruir email sondas", menciona o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual e maior acionista da empresa Sete Brasil; na mensagem de Odebrecht, ele afirma que as negociações sobre a Sete, contratada pela Petrobras para fomentar a indústria naval no Brasil, com a produção de sondas para o pré-sal no País, eram de iniciativa de Esteves; empreiteiro foi preso porque, numa mensagem anterior, um de seus executivos negocia com "André" um sobrepreço diário de US$ 20 mil a US$ 25 mil na operação das sondas; procurado pela reportagem, o BTG Pactual preferiu não comentar o bilhete apreendido pela PF

Um documento redigido pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht dentro da prisão em Curitiba, e que foi apreendido pela Polícia Federal, menciona o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. Nele, Odebrecht fala em “destruir email sondas”.

Embora a mensagem não seja completamente legível, é clara a referência a Esteves, que, além de dono do BTG, é também o maior acionista da empresa Sete Brasil, contratada pela Petrobras para fomentar a indústria naval, com encomendas de sondas para o pré-sal no Brasil.

“Destruir email sondas”, diz Marcelo, antes de fazer referência a RR. Trata-se do executivo Roberto Ramos, que foi da Braskem e, depois, se tornou presidente da Odebrecht Óleo e Gás.

“Email RR era da Braskem”, diz ainda Marcelo. Em seguida, ele acrescenta o trecho “história de iniciativa André Esteves”, fazendo a referência ao maior acionista da Sete Brasil.

“Lembrar que naquela época Sete não Petrobras. Off balance”, diz ainda o empreiteiro. Isso significa que, embora fosse subcontratada pela estatal, a Sete não fazia parte do balanço da empresa – portanto, qualquer negociação não afetaria diretamente a Petrobras, que é um dos alvos da Lava Jato.

Marcelo diz ainda que ajudar a Sete era o mesmo que ajudar a Petrobras.

Decodificando a mensagem

Para compreender o bilhete de Marcelo Odebrecht apreendido pela Polícia Federal, é preciso ler com atenção o email enviado por Roberto Ramos, em 2011, que foi considerado uma das principais provas usadas pelo juiz Sergio Moro para decretar sua prisão. Confira abaixo:

“De: ROBERTO PRISCO P RAMOS <[email protected] >

Para: Marcelo Bahia Odebrecht; Fernando Barbosa; Marcio Faria da Silva; Rogerio Araujo

Enviada em: Mon Mar 21 19:01:54 2011

Assunto: RES: RES: sondas

Falei com o André em um sobre-preço no contrato de operação da ordem de $20-25000/dia (por sonda).

Acho que temos que pensar bem em como envolver a UTC e OAS, para que eles não venham a se tornar futuros concorrentes na área de afretamento e operação de sondas.

Já temos muitos brasileiros “aventureiros” neste assunto (Schahim, Etesco…).

Internamente, eu posso transferir resultado da OOG para a CNO, mas não posso fazê-lo para as outras duas; isto teria que ir dentro do mecanismo de distribuição de resultados dentro do consórcio.Meu ponto é que ele não pode ser proporcional as participações atuais, porque, sem a OOG, a equação não fecha e quem trás a OOG é a CNO.

Em tempo: falei ao André, respondendo a pergunta dele, que o desenvolvimento do Operador tem que ser desde o inicio, para participar da escolha dos componentes, acompanhar a construção das Unidades, definir níveis de spare parts e, principalmente, preparar os testes e comissionamento. Ele pareceu entender.”

Claramente, Roberto Ramos fala a Marcelo Odebrecht sobre uma negociação com “André”, que, em razão do bilhete apreendido pela Polícia Federal, passa a ser André Esteves. Uma das empresas subcontratadas da Sete Brasil era o Enseada Indústria Naval, estaleiro na Bahia que tinha como sócios, além da Odebrecht, as empreiteiras UTC e OAS, também citadas no email.

Segundo apurou a reportagem de 247, na época em que aquele email foi enviado, em março de 2011, a Sete Brasil, comandada por André Esteves, tentou reduzir o valor dos navios e sondas que seriam produzidos pelo Enseada. No entanto, na negociação com Roberto Ramos, emerge um fato novo. A Odebrecht aceitaria reduzir o preço dos navios, ainda que isso prejudicasse seus sócios UTC e OAS, desde que ganhasse mais na operação – ou seja, no afretamento das sondas para a Petrobras por meio da Odebrecht Óleo e Gás. Justamente por isso é que surge o sobrepreço de US$ 20 mil a US$ 25 mil, por dia e por sonda. Tais valores seriam cobrados da Petrobras, que, em última instância, é quem paga pela operação das sondas.

Essa interpretação também coloca em xeque a nota divulgada pela Odebrecht na segunda-feira, em que a empreiteira afirmou que a palavra “sobrepreço” é uma expressão normal, que não significa “superfaturamento”. Segundo a Odebrecht, seria “cost plus fee”, ou seja, o custo da operação mais a comissão que remuneraria a empresa pelo seu serviço. Na verdade, a negociação entre Roberto Ramos e “André” deixa clara a cobrança adicional no afretamento por sonda.

Dando a volta nos sócios

Roberto Ramos chega a dizer que poderia até transferir o lucro da OOG (Odebrecht Óleo e Gás) para a CNO (Construtora Norberto Odebrecht), desde que isso não beneficiasse os outros sócios no consórcio. Ou seja: o sobrepreço na operação remuneraria a própria Odebrecht, mas não o Enseada Indústria Naval.

Nesta tarde, a reportagem do 247 entrou em contato com as assessorias da Odebrecht e do BTG Pactual. A construtora não se manifestou. Por meio de sua assessoria de imprensa, o BTG Pactual informou, às 18h23, que não iria se manifestar sobre o fato de André Esteves ter sido citado por Marcelo Odebrecht no bilhete apreendido pela Polícia Federal.

Nesta tarde, a advogada Dora Cavalcanti, que representa a Odebrecht, afirmou que, ao vazar o bilhete redigido por Marcelo Odebrecht, a Polícia Federal tenta tumultuar o processo.

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