28/12/2015

23:20

Por: Alberto Silva

Ex-Governador de Minas Anastasia em dúvidas ao impeachment de Dilma. “Nem sempre seguimos orientação do PSDB”, diz senador

"Vou analisar os dados com muita parcimônia, e nem sempre nós seguimos orientação do partido", afirmou o senador tucano Antônio Anastasia, em entrevista ao O Tempo, sobre a sua decisão caso o processo de impeachment contra Dilma Rousseff chegue ao Senado. Para ele, ainda que com a posição pública do PSDB de afastamento da presidente e de "aparentemente" haver a "ocorrência do crime [de responsabilidade]" pelo TCU, a situação é "complexa".

“Se porventura a presidente da República superar a questão do impeachment, o que será do país? Ou, por outro lado, se ela for afastada, o que será do governo Temer? Então, é difícil”, afirmou.
Ao ser questionado sobre a pressão da sociedade para aprovar o afastamento de Dilma, Anastasia disse que “as pessoas não distinguem bem o que é impeachment, o que é afastamento, o que é tirar, mas querem que resolva”.
Diante do papel do partido dentro da oposição, Anastasia defendeu que o PSDB “tem ajudado o governo” e que “o inimigo número 1 do governo federal no Congresso é a base, especialmente o PT”. “Tudo na vida é equilíbrio. Somos oposição, mas uma oposição responsável”, disse o senador.
Leia a entrevista completa:
O Tempo – Se o poder da decisão sobre o impeachment couber ao Senado, como o senhor avaliará o processo? Pelo conteúdo que já leu, é a favor do impedimento?
Anastasia – O meu partido, o PSDB, tomou até uma posição pública, e, naturalmente, sei que tem sido partidária. Aparentemente, de acordo com a opinião do Tribunal de Contas da União, tivemos a ocorrência do crime. Não posso dar uma resposta precisa, primeiro, porque vou julgar mais adiante. E segundo, porque, de fato, a matéria ainda não chegou para análise. Até pela minha condição profissional, no momento oportuno, claro que vou me deter com muito cuidado, até porque me considero uma pessoa justa. Vou analisar os dados com muita parcimônia, e nem sempre nós seguimos orientação do partido. Temos de aguardar, não vou antecipar nada, nem que sim, nem que não. Há essa inclinação, esse sentimento. Agora, se porventura a presidente da República superar a questão do impeachment, o que será do país? Ou, por outro lado, se ela for afastada, o que será do governo Temer? Então, é difícil. Nós estamos em uma situação complexa.
Concorda com o rito do impeachment aprovado pelo Supremo Tribunal Federal?
Sim. Só discordo – claro que não tenho que discordar do Supremo –, mas o que achei um pouco estranho, diferenciado, é a questão da composição na Câmara, aquela determinação da formação da chapa única, indicada pelos líderes. Não sobre a questão do voto fechado ou aberto, porque, como se trata de uma eleição, eu acho que eleição pressupõe escolha, e, normalmente, o voto para as eleições é sempre secreto. Mas não sou especialista em regimento da Câmara, nem do Senado. Então, vamos ver o que a Câmara vai resolver. Só achei uma coisa um pouco diferente do normal.
O senhor já começou a receber a pressão como congressista, da sociedade ou do partido, para aprovar o afastamento da presidente?
Da sociedade, já estou recebendo pressão, e não é de hoje. Só que as pessoas não distinguem bem o que é impeachment, o que é afastamento, o que é tirar. Mas querem que resolva. Querem tirar, tirar, tirar, mudar, mudar. Muitos se sentem enganados. Isso na rua, em qualquer lugar que você vá, com qualquer classe social.
E essa cobrança é em virtude da crise econômica?
Para as pessoas mais simples, a crise econômica atinge em primeiro lugar. Fui outro dia a uma lavanderia, e a funcionária me disse que estava em uma situação difícil, porque foi demitida, estava cumprindo o aviso prévio. Disse que está insustentável e coloca, naturalmente, a culpa no governo. Então, o ambiente está muito contaminado. Você anda em qualquer lugar, motorista de táxi, atendente, as pessoas perguntam: “Vai tirar ou não vai tirar, quando vocês vão tirar?”. As pessoas estão cobrando muito a solução e uma reversão da política econômica.
Governistas acusam a oposição de estar inflando, aumentando o tamanho desta crise, inclusive dificultando projetos que seriam de interesse do país. Como o senhor analisa isso, principalmente quanto ao senador Aécio Neves, que tem um discurso às vezes raivoso e inflama uma situação que já é ruim?
Pelo contrário. Estão reclamando, achando o Aécio muito ameno. “Vocês têm de ser mais enfáticos, mais virulentos”. Eu digo: “Mais do que já somos?”. Tudo na vida é equilíbrio. Somos oposição, mas uma oposição responsável. Essa observação não procede, porque é o PSDB que tem ajudado o governo. O inimigo número 1 do governo federal no Congresso é a base, especialmente o PT. Quando chega um projeto econômico do governo, os senadores do PT são os primeiros a subir à tribuna. Outro dia, o líder do governo José Pimentel em uma votação avisou que a posição do governo seria pelo “sim”. Ele votou “sim”, e os outros dez senadores votaram “não”. Como o governo funciona? Quer dizer, não tem unidade. Então, na verdade, o PSDB e outras siglas de oposição não têm nenhuma culpa disso, até porque essa teoria que o PT criaram, quem levou a situação a ter esse baque econômico foi a política suicida que eles inventaram nessa matriz econômica e que já vem dando errado há muito tempo. Então, chegou a esse ponto de impasse, eles próprios não sabem resolver o problema e querem jogar a culpa na oposição. Quem tem de resolver o problema é o governo, que tem maioria no Congresso. Nós ainda somos muito, ao contrário de raivosos, serenos, aprovando várias medidas. A DRU, por exemplo, nós vamos votar. A CPMF, não.
O senhor, quando foi governador, tinha boa relação com a presidente? Como a vê hoje?
Tivemos um relacionamento de alto nível institucional entre um presidente da República e um governador de Estado. Apesar disso, infelizmente, os pleitos principais de Minas não foram atendidos. Mas, independentemente disso, foi um relacionamento amistoso. Depois que deixei o governo, em abril de 2014, quase dois anos atrás, nunca mais estive nem falei com a presidente. Aí houve a campanha, fui para o Senado, sou senador da oposição, nunca fui procurado. Então, não sei qual o grau que ela está atualmente. O que algumas vezes me espanta, e é o que todo mundo vê, são alguns discursos um pouco desconexos. E não sei o motivo.
Como recebeu a notícia da condenação do ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB)?
É uma condenação em primeiro grau. Muitas pessoas fazem uma comparação disso com as condenações do mensalão do PT, porque lá já saiu a condenação em último grau. A decisão lá (no STF) era definitiva. Aqui, haverá recursos, a condenação existe hoje e pode não haver amanhã, ou pode ser outra. Então, teremos de aguardar. Mas não é um fato determinado, não há uma decisão final. Ele, evidentemente, tem as suas razões. Azeredo nos contou que – eu não conheço o processo – as alegações da sua defesa não foram consideradas. É a alegação que ele faz, e espera que sejam consideradas agora na segunda instância. Então, temos de aguardar.
O senhor foi citado como suspeito de participação no esquema de corrupção da Petrobras, revelado pela operação Lava Jato, em ação já arquivada. A que atribui essa acusação?
Não há dúvidas de que houve uma armação para me atingir. Tentei investigar, mas, a esta altura, como vou descobrir? Espero que algum dia isso se esclareça, o objetivo de me inserir no meio de uma acusação de um governador de Estado de oposição, que não tem nada a ver com a Petrobras. Uma acusação cujo fato em si era tão fora da realidade, tão fantasioso o descrito, não só em relação ao meu comportamento, que é conhecido em Minas à exaustão, até em relação a qualquer outro. Você imagina um governador de Estado ir a um lugar que não sabe onde era, pegar dinheiro de uma pessoa que nunca viu na vida, quer dizer, é uma coisa sem pé nem cabeça, mas houve evidentemente um propósito nisso. Foi arquivado, e espero algum dia saber qual foi o objetivo em me prejudicar. Era me enfraquecer politicamente? Tenho que esperar. Um dia, espero que se descubra o motivo desse despropósito.
Como foram os dias do senhor do momento da citação ao arquivamento?
Foram dias horríveis, obviamente. Imagina você ser acusado, toca o telefone aqui, e falam: “Lembra-se daquele atentado contra o papa? Foi você o responsável por isso”. É o mesmo caso, porque é um fato que não tem nenhuma relação. Veja bem, fui governador de Minas, fui vice-governador, fui secretário geral de ministérios. Sobre coisas relativas ao que eu trabalhei, estou sujeito a responder. Agora, um assunto completamente estranho e distinto do meu cotidiano foi uma surpresa absurda, transformada em uma coisa negativa, mas que se reverteu. Sob o ponto de vista pessoal, a despeito do sofrimento, acho que sob certo aspecto até me fortaleceu, porque percebi que você, na política, tem que ficar com o couro cada vez mais grosso, lamentavelmente. E isso nem é meu estilo.
O governador Fernando Pimentel disse que ficou assustado com a situação em que encontrou a administração estadual. Ele disse que vendia-se uma organização, e achou-se uma grande bagunça. Como o senhor analisa essas declarações e esse primeiro ano do atual governador de Minas Gerais?
É natural que o partido que ganha uma eleição em oposição ao outro queira identificar defeitos. Acho equivocado a pessoa administrar olhando para trás. Em abril, o Banco Central publicou o boletim quadrimestral em que o maior superávit entre os Estados foi o de Minas em 2014. Em matéria de organização, Minas é exemplo no Brasil inteiro. Podem ter, eventualmente, achado alguma coisa em uma área ou outra que funcionasse pior. Não vou discutir uma coisa tão pequena e tão mesquinha. Agora, a situação econômica do Estado piorou em razão da queda de receita. Em 2013, quando a crise se agravou, cortei secretarias, demiti gente, fiz enxugamento. A crise piorou, a receita caiu, e o governo gastando com propaganda. Houve até um fato raríssimo: uma sentença judicial proibindo a propaganda. O governo atual não poderia gastar dinheiro falando mal do governo anterior. Então, é um quadro que acontece, mas faz parte da política.
Então, avalia que o PSDB perdeu as eleições em Minas por quê?
São vários fatores. Um dia, vou escrever um livro sobre a eleição de 2014. Na verdade, aconteceram muitas coisas que não cabe levantar agora. Eleição é democracia, é alternância de poder, eu não reclamo.
Acha que o desgaste com os professores pode ter influenciado?
Não, porque uma coisa é professor, outra coisa é sindicato. O sindicato tinha uma bandeira no meu governo, e nós fizemos a unificação da remuneração, o subsídio. A remuneração continua globalizada, e não vejo o sindicato reclamar. Então, é uma questão também de posicionamento político. E, se houvesse esse desgaste em relação a professores, o derrotado seria eu.
Sobre as eleições de 2016, quem será o nome do PSDB?
Essa pergunta não sei responder. Não será comigo, porque não sou candidato. Teremos um candidato forte em BH, objeto de convergência entre o prefeito Marcio Lacerda (PSB) e o nosso grupo, liderado pelo Aécio. Não sou candidato em nenhuma hipótese, porque acabei de me eleger senador e não vou ficar me candidatando a todas as funções que apareçam.
(via GNN)

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