20/09/2016

09:36

Por: Alberto Silva

Porque é necessário dessacralizar o nome de Lula

Lula fez, outro dia, um discurso defensivo, que incluiu algumas frases bem esquisitas: “Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua encarar o povo, e pedir voto. O concursado não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”.

Lula confia na sua capacidade de improviso. E, obviamente, estava se contrapondo aos procuradores do ministério público que o acusam, e demais juízes que o ameaçam, ou podem vir a ameaçá-lo. Mas, sem querer, Lula entregou suas graves limitações nessa declaração.

Não vou nem moralizar a parte do ladrão – indesejável em qualquer profissão, mas tanto mais grave nas que lidam com a coisa pública, que é de todos e às vezes ninguém vigia de perto. O que interessa nesse trecho é o que escapa a Lula. E escapa a ele, completamente, a dimensão do sacerdócio na política. Exatamente a que seria necessária para sustentar a enorme dimensão psicossocial que ele adquiriu.

É evidente que os dois mandatos de Lula tiveram enorme impacto no rearranjo psicossocial do Brasil. Mais do que a redistribuição de renda, talvez, houve uma ruptura do elitismo negativo que nos caracterizava.

É evidente que os dois mandatos de Lula tiveram enorme impacto no rearranjo psicossocial do Brasil. Mais do que a redistribuição de renda, talvez, houve uma ruptura do elitismo negativo que nos caracterizava. Digo “elitismo negativo” porque, nos países em que a social democracia construiu estados de bem-estar social, podemos enxergar uma forma de “elitismo positivo”, paternalista mas eficiente na redução de danos.

Já nossa elite, no afã de negar o “pé da cozinha” (para lembrar da expressão chacoteiramente utilizado por FHC), costuma ser bastante malévola. É como se tivéssemos herdado esse complexo das capitanias hereditárias, de um ciclo infinito de predação, como se aqui não fosse, ao fim e ao cabo, a casa de todos. E que um pouco de bem-estar comum faz a sociedade evoluir no conjunto.

Foi até aí, até a ruptura simbólica desse ciclo, que Lula chegou. E daí não passou. De novo, para não moralizar, acho que Lula não foi santo nessa trajetória. Digo mais, se santo fosse, essa trajetória simplesmente não seria possível. Um grau de “habilidades mercuriais”, de tricksterismo, de passar da luz à sombra e penetrar ambientes mafiosos sem perder o autocontrole, terá sido necessária. Em termos mais simples, um pouco de picaretagem.

Mas há um momento em que essas habilidades são checadas pelo destino, e têm que reafirmar a que vieram. No tarô, dir-se-ia que é a passagem do mago de feira, do truque de moedas, para o mago que começa a moldar a realidade (não com a energia dele mesmo, mas com a expectativa da plateia hábil e conscientemente canalizada).

Na verdade, em cada mago convivem esses dois, o truqueiro e o sublime – e quando o espetáculo cresce é a hora da verdade, do sustentar ou não a passagem do truquinho à magia portentosa. Eu digo mago e sacerdote com esse mesmo sentido; o sacerdote também tem sua face charlatã. Há um ótimo filme sobre isso, O Homem Que Queria Ser Rei, adaptação de uma história de Kipling com Sean Connery e Michael Caine, que mostra o contrário, quando a veia sacerdotal (= responsável) se manifesta e contraabduz o oportunista.

Já Lula, o que ele revelou nessa fala é que nunca superou aquela dimensão tiozão-sindicalista, a de que o ápice da existência é cada operário com um carrinho na garagem e uma churrasqueira. Carne queimada e gasolina, esse é teu nome. Quando Lula chegou ao auge de credibilidade e aprovação popular, era a hora de ter transmutado as eventuais contradições e/ou picaretagens da sua trajetória em grande magia social; numa transformação real e necessária (arrancar a reforma política, por exemplo).

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