20/09/2015

21:20

Por: Alberto Silva

Rede Record dispara no Ibope deixa Globo para traz e atores já falam em deixar emissora

No sétimo dia, Alexandre Avancini, 50, não descansou. O diretor de "Os Dez Mandamentos", primeira novela das nove da Record a conseguir empatar com a Globo na liderança da audiência nacional, anda trabalhando como quem criasse um mundo.

A Rede Globo até que tentou, esticou horário do JN, fez de tudo mas, Rede Record Dispara e atores da Globo começam a negociar com emissora que prometer ser a ‘favorita’ em novelas.

“É a coisa mais difícil que eu já dirigi na minha vida”, diz Avancini. Ele lidera centenas de atores personificando a saga dos hebreus, que foram escravizados no Egito, se libertaram com a ajuda de dez pragas divinas e depois peregrinaram pelo deserto em busca da terra sagrada.

A abertura do Mar Vermelho está sendo gravada há quatro meses. O esforço épico parece ter surtido efeito. Em abril, menos de um mês depois da estreia da novela, audiência do canal no horário crescera em 83%, na média (de 5 para 9,1, ante média de 26 da Globo no período).

Em 9 e 15 de setembro, a Record empatou com a Globo por alguns minutos no horário nobre (veja abaixo).

O sucesso não se faz só de picos. Na noite de quarta (16), em que disputou com “A Regra do Jogo” por mais tempo, 40 minutos, a Record teve média de 19 pontos, contra 21 globais (cada ponto equivale a 67 mil casas na Grande SP).

Para estancar o avanço, a Globo tem evitado o confronto entre novelas, esticando o horário do “Jornal Nacional” em até 15 minutos. O canal confia também no texto cheio de reviravoltas de “A Regra do Jogo” para competir contra as pragas do Egito que estão indo ao ar na Record.

A disputa dos canais por profissionais aflorou. “Estou conversando”, diz um ator da Globo quando questionado sobre um convite da Record.

“É bom reestabelecer concorrência no mercado”, diz Sergio Marone, 34, que encarna o faraó Ramsés após ter trabalhado no horário nobre da Globo –hoje tem “o maior reconhecimento do público”.

O sucesso de “Os Dez…” criou um filão de produtos bíblicos no horário nobre. “Vou emendar essa com ‘Josué e a Terra Prometida'”, diz Avancini, referindo-se à próxima empreitada cristã do canal, com previsão de ir ao ar no segundo semestre de 2016.

Mas boa audiência por que passa o canal pode adiantar a estreia desse produto. Segundo apurou a Folha, há um plano de encurtar a colonial “Escrava Mãe”, que deve estrear em novembro.

OS EGÍPCIOS VÊM CHEGANDO –

A evolução do horário nobre da Record, nos seus picos de audiência

Para ter essa margem de manobra, o texto de “Josué” será feito pelo dramaturgo Renato Modesto. A Record pediu que todos os capítulos da nova novela fossem entregues antes da sua estreia, prática incomum, já que autores podem mudar os rumos de acordo com a audiência.

TENSÃO

Mas nem só de gritos de glória é feito o bastidor da novela. Quatro funcionários relataram alguma tensão no estúdio. Há o temor de que a equipe da próxima novela seja terceirizada a uma produtora, como foi “Escrava Mãe”.

Um deles relatou a estranheza de trabalhar numa atração de sucesso e não saber se terá emprego daqui a um mês.

O temor veio em dupla: além de cortes, os boatos dão conta que a próxima novela sairia dos domínios do RecNov, estúdio do canal no Rio.

“Pode até haver uma terceirização da [equipe] técnica. Não sabemos ainda”, diz o diretor Avancini, “mas ficaremos no Rio de todo jeito”.

Procurada, a produtora Casablanca, que está em tratativa com o canal, disse que apenas a Record se manifestaria. O canal não comenta.

Enquanto aflições preocupam parte da equipe, a chefia do canal comemora. A bonança resultou num milagre da multiplicação de capítulos: concebida como série, “Os Dez..” virou novela de 150 episódios e vai terminar no fim de outubro com 170.

Em nome da dramaturgia, criaram-se personagens e acontecimentos que não constam no texto sagrado.

“Eu não mexo no que está na Bíblia, mas há uma liberdade para criar tramas”, diz a autora do folhetim, Vívian de Oliveira, 43, por telefone.

Se não existissem essas tramas paralelas, afirma ela, “seria uma minissérie de dez capítulos”. A exemplo de outras que já escreveu para a rede, como “Rei Davi” (2012).

Ao contrário dos produtos anteriores, que eram exibidos fora do horário nobre, Oliveira também aponta maior liberdade no folhetim. “Fui auxiliada por historiadores, mas aprendi a ignorar alguns fatos em nome da trama.”

Uma das adaptações, segundo a figurinista Carolina Li, 43, são indumentárias extravagantes. Tecidos sem tingimento que imperavam nesse período histórico foram substituídos por roupas vivas e decotes às vezes profundos. “A gente faz um figurino meio Disney, eu brinco”.

As vestimentas expuseram um lado pouco explorado dos textos bíblicos: o abdômen rasgado de um faraó, por exemplo. “Exploro o que o ator tem de melhor.”

PRAGAS CONTRA A GLOBO – Como a Record encostou

O ataque da nuvem de conservadores

Temas como um casal de lésbicas idosas e uma filha esbofeteando a mãe afastaram uma parte conservadora do público de “Babilônia”, que se manifestou contra a novela que competiu com “Os Dez Mandamentos” por meses

A maldição do horário indeciso

Para evitar confronto direto com “Os Dez Mandamentos”, da Record, a Globo adia o começo da novela das nove, que deixa de ser das nove e às vezes beira ser das dez

A diáspora da audiência

Nos últimos dez anos, todos os canais abertos viram seu público diminuir A Globo, por exemplo, perdeu cerca de 30% em pontos de ibope aos domingos na Grande São Paulo (cada ponto é igual a 67 mil lares)

A chuva de reviravoltas da concorrência

É difícil competir com um texto como o de “Os Dez…”, que traz infestação de rãs em um episódio, chuva de pedras em outro e está prestes a perder parte do elenco quando uma praga matar todos os primogênitos de uma só vez

Um clássico que abusa de clássicos

Segundo a autora de “Os Dez…”, a novela “usa todos os clássicos do gênero”: há um triângulo amoroso entre irmãos de criação, romances de balde e mocinhos e vilões bem definidos

O gigante da identificação universal

A Bíblia é o livro mais vendido da história. O público tende a conhecer as tramas –e se identificar com elas

(Via Folha)

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