22/08/2015

18:49

Por: Alberto Silva

Oposição quer manter o discurso alinhado “Que a presidente Dilma Rousseff renuncie ao cargo num “gesto de grandeza”

Em política, uma reivindicação pode valer mais pelo seu significado simbólico que pelo efeito prático. Na semana passada, por meio de sua página no Facebook, o ex-presidente Fernando Henrique pediu que a presidente Dilma Rousseff renunciasse ao cargo num "gesto de grandeza". Amenizando a radicalidade do pedido, acrescentou que a renúncia poderia ser substituída pela "voz franca de que errou". O efeito prático de exigir a renúncia da presidente é próximo de zero, pois não há nenhum sinal ou suspeita de que Dilma planeje ou cogite entregar o cargo, ou mesmo fazer uma autocrítica honesta. O significado simbólico, porém, já se mostrou precioso.

Com a bandeira da renúncia, Fernando Henrique encontrou uma forma de pacificar os tucanos, divididos entre os que preferem que Dilma deixe o poder no fim do mandato, em 2018 (Geraldo Alckmin), os que gostariam que cedesse a cadeira presidencial ao vice (José Serra) e os que adorariam um impeachment seguido de eleições (Aécio Neves). A renúncia não atende ao desejo de nenhum líder tucano, mas tem algo que vale seu peso político em ouro: permite que todos atravessem o temporal da crise articulando seus interesses, mas debaixo do mesmo guarda-chuva.

Nos bastidores, onde se escreve hoje o capítulo de amanhã, os tucanos mantêm uma atividade febril. No Congresso, tentam reaproximar-se do PMDB, fiel da balança do impeachment, depois do isolamento do deputado Eduardo Cunha, atropelado pela propina de 5 milhões de dólares, e da debandada do senador Renan Calheiros, que voltou a namorar o governo. Facilita o trabalho do PSDB o fato de que o senador troca de barco conforme as condições de navegabilidade. Diz um tucano: “Renan é igual ao capitão italiano que abandonou o navio Costa Concordia. No lugar das mulheres e crianças, ele passa na frente e sai nadando”. O senador Aécio Neves, o mais empenhado no impeachment, está se articulando com os demais partidos de oposição. Nesta semana, vai se reunir com os seus presidentes, junto com juristas como Miguel Reale. Discutirão um meio legal de o Congresso rejeitar as contas de Dilma mesmo que o Tribunal de Contas da União não o faça em seu parecer final.

O PSDB só aceita o impeachment com base jurídica segura. Avalia – corretamente, aliás – que não existe evidência concreta de crime de responsabilidade de Dilma, e, portanto, o impeachment agora equivaleria a atropelar a Constituição. A bandeira da renúncia contorna o problema, com um bônus adicional: manda um aceno de aliado para as manifestações de rua, que no domingo passado ajudaram a manter em alta a pressão contra o Palácio do Planalto. Pela primeira vez, os tucanos participaram dos protestos. Serra foi à Avenida Paulista. Aécio subiu no palanque em Belo Horizonte. Os tucanos não querem perder a simpatia das ruas, mesmo sem encampar o impeachment. Por isso, Aécio fez questão de salientar que, agora, o partido e as ruas estão em “convergência”.

O desafio de fundo dos tucanos é funcionar como um partido político. Recentemente, o filósofo José Arthur Gianotti, historicamente próximo ao tucanato, disse: “O PSDB nunca foi um partido. Sempre foi mais uma reunião de caciques que têm suas próprias posições”. O momento exige que o PSDB evite burradas, como a de trair suas convicções históricas. Quando o partido votou contra o fator previdenciário, confundindo punir o governo com punir o país, gerou desconfiança até entre seus eleitores. A unidade da “reunião de caciques” é fundamental caso o PSDB queira ser o principal beneficiário da crise. É notável que, neste momento histórico, em que se encerra a era PT, o substituto natural, que seria o PSDB, encontre dificuldades para se credenciar ao posto. O sintoma mais patente dessa situação está no fato de que o único líder com capital político para unificar o partido é o mesmo líder que carece de apetite eleitoral: FHC.

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