21/09/2015

21:25

Por: Alberto Silva

Após 6 anos preso por causa de blog, iraniano vê web refém do Facebook

O blogueiro iraniano Hossein Derakhshan, 40, ficou seis anos sem acessar a internet, de 2008 a 2014, por estar preso após liderar um movimento contra a censura no país. Ao sair da cadeia, em novembro, sentiu ter acordado em um mundo digital completamente diferente.

“Seis anos é muito tempo para estar atrás das grades, mas é uma era inteira em termos on-line”, escreveu ele no texto “The Web We Have to Save” (a internet que temos de salvar), publicado na plataforma Medium em julho. O artigo se disseminou e gerou debate sobre produção de conteúdo na rede.

No artigo, critica o predomínio das redes sociais, especialmente do Facebook, na cultura da internet –em 2008, quando ele foi preso, o portal de Mark Zuckerberg tinha 100 milhões de usuários, número expressivo, mas distante do 1,5 bilhão de hoje.

Derakhshan descobriu que, de agora em diante, se quiser ser visto terá que usar esse tipo de site. Até tentou o Facebook, mas conseguiu três curtidas na primeira postagem. “Três. Só isso”, lamentou no texto.
Encontrou uma internet muito mais parecida com a televisão, com o predomínio dos vídeos, e menos apoiada nos princípios originais de sua criação.

Antes, a navegação era norteada por links (com páginas fazendo ligações umas com as outras de acordo com conteúdos comuns). Agora, os internautas encontram informação de acordo com o que é determinado por algoritmos das redes sociais.

“Não são os blogs que estão morrendo, mas sim toda a internet que foi construída na ideia dos hiperlinks. As informações abertas estão mais raras. E isso é uma ameaça muito séria”, disse, à Folha por e-mail.

Para ele, as mídias sociais e os apps dificultam a difusão de conhecimento. Leia abaixo trechos da entrevista.

Morte dos blogs

Aplicativos móveis e as mídias sociais estão matando o hiperlink e, por tabela, a web. É uma ameaça muito séria, já que o Facebook está gradativamente dominando a internet e superando o Google.

Os efeitos

As informações que eram abertas e tinham uma única URL ficaram cada vez mais raras. O Facebook está enclausurado em portas fechadas. Muita informação produzida hoje em dia não é linkável. Apps e seu conteúdo interno não podem ser acessados.

Rede intramuros

A informação alcança mais gente, mas ela está atrás de paredes e não pode ser buscada. Eu diria que a exceção atualmente é o Twitter, que de certa forma é uma rede social aberta e que respeita os hiperlinks. É o mais próximo que existe em termos de respeito aos princípios da fundação da web.

Conhecimento

A produção de informação aumentou incrivelmente nos últimos anos, mas acessá-la não é tão fácil. Escrever é mais fácil, mas ser lido é muito mais difícil. E mesmo a produção de texto perdeu espaço para imagens e vídeos.

Preguiça de pensar

Os vídeos não são ruins em si. Mas nesses tempos complicados, a internet, com seu poder intelectual, diversidade e abertura, poderia nos fazer pensar. A web nos encorajava a raciocinar, a ler e nos surpreender. As mídias sociais e os algoritmos nos deixam preguiçosos. Também silencia minorias e visões minoritárias.

Visão única

Todo mundo poderia chegar à mesma conclusão que eu. Mas penso que eu pude demonstrar esse choque melhor, por causa da minha história.

Vida na prisão
Eu estava escrevendo um diário, como se eu estivesse escrevendo no meu blog após o terceiro ano. Mas algumas vezes eu realmente queria compartilhar meus pensamentos com outras pessoas. Eu também escrevi mais de 20 resenhas de filmes.

Atualmente
Não tenho restrição sobre o o que ou onde escrevo, desde que eu aja de acordo com o código legal iraniano.

(VIA FOLHA)

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