16/04/2015

08:56

Por: Alberto Silva

Aécio Neves pode destruir o país até 2018 “cálculo da radicalização”

Jair Bolsonaro já declarou que Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República, merecia ser fuzilado.
Deputado do PP do Rio, ele hoje caminha sorridente nas manifestações dominicais pró-impeachment. Tira foto, posa para selfies. Condenado na Justiça por homofobia, é tratado como herói entre os que se manifestam de mãos dadas com os filhos e os netos.

Um dos líderes do movimento, recém-alçado pelos jornais a herói das classes trabalhadoras, diz a quem quiser ouvir que o PT merece um tiro na cabeça.

Linguagem figurada ou não, o comando tem apoio. Em 2000, quando Bolsonaro berrou, FHC reagiu. “Ele passou dos limites”.

E agora?

Em ao menos duas ocasiões neste ano, as sedes do PT, partido de André Vargas e Antônio Palocci, mas também de Eduardo Suplicy e Tarso Genro, foram atacadas com material explosivo. Quem hoje anda com camisa vermelha aos domingos o faz por sua conta e risco.

Nos vídeos gravados para o YouTube, os arquitetos mirins da revolução não economizam na linguagem bélica associada a taras mal resolvidas da fase anal. No palanque, incitam o ódio, a eliminação, a limpeza. Lembram o personagem de Sasha Baron Cohen no filme “Borat”, quando pega o microfone em uma festa de rodeio e leva a plateia americana ao transe ao defender a morte de iraquianos, inclusive mulheres e crianças.

Comicio
Foto de comício em São Paulo 1954

Se antes a malcriação era corrigida com o tempo de maturidade, de estudos ou com remédios, hoje serve como bateria a um outro tipo de artilharia. O PSDB, principal partido de oposição, sabe disso, e tem motivos para acompanhar o movimento entre o interesse e a distância segura.

Na história do século 20, não faltaram episódios de polarização aguda e apaixonada. Uns foram debelados, outros seguiram às tampas, e outros culminaram em explosão. No inicio dos anos 1930, apoiadores da dobradinha Washington Luís/Júlio Prestes seguiriam atravessando a rua se dividissem a calçada com os arquitetos da rebelião anti-Catete liderada por Getúlio Vargas, mas, apesar do clima de beligerância e da corrida armamentista que se seguiu, a guerra talvez não fosse declarada se, em circunstancias paralelas, João Pessoa não tivesse sido assassinado. Da mesma forma, Vargas seguiria firme com as orelhas em chamas no Catete em 1954 se não fosse o atentado na rua Tonelero.

No histórico de rupturas institucionais, seguida de instabilidade social aguda, os ingredientes se repetem: um coro de descontentamento, outro de medo, um terreno a paranoias e fantasias e um episódio determinante para o incêndio. A renúncia de Jânio Quadros, por exemplo. Ou o atentado ao Riocentro, se tivesse sido bem-sucedido.

Em todos os casos, sobravam combustíveis e faltava a fagulha – e esta era a única via imponderável da história. As outras eram administradas em tanques de gasolina.

Era isso o que fazia Carlos Lacerda ao acusar o governista de plantão de estar afogado no mar de lama. A agenda higienista servia a uma retórica oposicionista, mas não tinha força para evitar a avalanche criada sobre o medo, a insegurança e a incitação ao radicalismo. Lacerda foi engolido pelo regime autoritário que ajudou a catapultar. Vinha de um governo bem-avaliado no governo da Guanabara e tinha chance de chegar à Presidência. Mirou em JK, depois em Goulart, e acertou a própria estrada: a via democrática.

É esse, e não outro, o cálculo de quem hoje lança gasolina num tanque que, por sorte, ainda não teve seu rastilho de pólvora. Quem enxerga a curto alcance mira o caso Collor. Se ele tivesse completado o governo, raciocinam, FHC não seria ministro, não haveria Plano Real, não haveria pavimento sob Itamar Franco até a Presidência. Mas o grau de polarização era outro. A base do presidente era outra. O PMDB também. O PSDB, idem.

Por circunstancias políticas e históricas, os antigos economistas e intelectuais moderados hoje comem nas mãos de quem, incitado pelo Borat da vez, não teria vergonha em aplaudir os apelos simbólicos por tiros na cabeça. Daí o abrigo a coronéis e delegados que não medem palavras nem gasolina para fazer sangrar o governo. Só que o DNA tucano não comporta radicalismo, e isso os manifestantes de 15 de março e 12 de abril já perceberam. Tanto que lançaram um ultimato. “Teremos ou não nosso Carlos Lacerda?”.

Aécio cozinha em fogo quente. Pode queimar até 2018. Antes de acender a fogueira, precisa combinar com a ala fogo brando do próprio partido – exatamente a ala que chegaria a 2018 com mais chances de vitória.

Levada a sério, a retórica belicosa dos jovens manifestantes assegura: a única mudança que interessa é tirar o PT do poder. Parte dos tucanos vai na onda, talvez sem se dar conta de que, para avançar um centímetro, Aécio não encontrará terreno vago, mas mapeado pelo peemedebismo ascendente. Em 1993, a ausência de figuras como Eduardo Cunha levava o PMDB a aceitar o papel de tampão. Hoje as figuras são outras. As ambições, também. Aécio sabe disso, mas tenta ganhar tempo sem jogar para uma plateia que começa a se irritar.

Para os apressados, a hora é agora, mas, para o bom senso, seria loucura acender o rastilho. Insanidade por insanidade, seria loucura dizer a uma colega de bancada que não a estupra porque ela não merece. Seria loucura falar em fuzilamento de presidente eleito. Seria loucura, a essa altura do campeonato, passar a falar a mesma linguagem – ou levar em conta os apelos de seus tradutores. Seria, se o mundo já não estivesse de ponta-cabeça.

Em tempo. É impressionante como PT e PSDB se equivalem quando tentam jogar ao colo do outro o monopólio da degradação moral. A demora da CGU em investigar uma suspeita na Petrobras, supostamente por motivações eleitorais, é grave, mas tem seu equivalente em São Paulo, principal reduto tucano.

Durante a eleição, vazou o áudio em que a então presidente da Sabesp, Dilma Pena, apontava a necessidade se fazer campanha diária na TV para economia de água para evitar o racionamento. No áudio, ela lamentava a ingerência de seus “superiores” em campanha. Estelionato por estelionato, alguém pode ter visto na confissão um motivo “extremamente forte” para o impeachment do governador reeleito. Outros preferem não brincar com fogo – nem com água.

Em tempo 2. Tesoureiro do PT, João Vacari Neto, acaba de ser preso pela PF na sequência da Operação Lava Jato. É mais um indício de que, uma vez no poder, o partido se comportou como os demais – o que em nada alivia sua situação. Se fosse de fato diferente, 12 anos é tempo suficiente para compreender que o padrão da campanha política no Brasil é insustentável. Deveria ser tempo também para transformá-lo.

 

Foto: Comício do caso Carlos Lacerda em 1954/Jornal Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo

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