28/08/2016

18:20

Por: Alberto Silva

A crise bate seu recorde, mesmo com perda de clientes cresce números de garotas de programas

O RETRATO DO BRASIL – Qual será o discurso de DILMA amanhã? A crise no Brasil atraí cada vez mais mulheres e meninas para casas de prostituição. Não tem emprego e o pior, nas casas de programas não tem cliente.

Sentada no bar, Bia é a mais calada entre duas garotas. Aos 20 anos, ela tem os gestos e a voz que cabem justos em seu corpo franzino.

Não fosse o semblante desconfiado e, ainda assim, ela se destacaria. A pele pálida, os olhos negros realçados pela maquiagem discreta e o vestido mais comportado do que a média local, fazem dela algo diferente. É sua quarta vez.

Na outra ponta do balcão, Fernanda, 22. Blusa decotada, shortinho jeans, é mais despachada e direta. Sempre com um copo de caipirinha nas mãos, a morena circula pela boate com a destreza de uma veterana. Não é o caso. É ainda mais novata do que Bia. É apenas sua terceira vez.

Nenhuma delas vai voltar para casa com dinheiro nessa terça-feira fria em São Paulo –R$ 150 por 40 minutos de sexo em um dos quartinhos abafados nos fundos da boate.

Não são as únicas. Segundo donos, funcionários das boates e as próprias mulheres, em meio à pior crise econômica em décadas no país, esses lugares estão cada vez mais cheios… de garotas de programa, e só. Muitas, assim como Bia e Fernanda, levadas até ali, segundo elas, pelo desemprego do lado de fora.

No Bahamas e no Café Photo, ambos na zona sul e considerados de alto nível, os valores da entrada –R$201 e de R$100 a R$150, respectivamente– foram reduzidos. “A média era de 250 homens por dia. Hoje, para colocar 70, 100 é uma situação delicada”, afirma Oscar Maroni, empresário da noite e dono do Bahamas.

Há oito meses, a estudante de publicidade Rebeca, 25, se tornou assídua do local.

Foi mais ou menos na mesma época em que percebeu que seu padrão de vida havia caído. Mantida pelos pais com cerca de R$ 2.500 mensais, ela se deu conta de que precisava de uma renda fixa e maior após ser rejeitada em mais de 15 entrevistas de estágio.

Olhos claros, cabelo castanho e corpo perfeito. Sair com ela não custa menos do que R$ 500. O preço inicial era R$ 700. “Nos primeiros meses, tirei até R$ 30 mil”, diz. “Agora, de R$ 20 mil a R$ 22 mil.”

Há dez anos na noite, Aline Ribeiro, 30, já ganhou tão bem quanto Rebeca. Em 2015, seu cachê caiu de R$ 400 para entre R$ 250 e R$ 300.

No Café Photo, a queda no número de frequentadores foi de 20%, diz a casa. “Mesmo o cliente ainda vindo, o gasto acaba sendo menor.”

Bamboa, em Pinheiros, e Scandalo, na Vila Mariana, formam a quadra das boates mais luxuosas nessa área. Procuradas, elas não retornaram. Mas, de acordo com o que a Folha apurou, a queda segue trajetória semelhante.

CONTAS ATRASADAS

Ruim para elas, pior para Bia e Fernanda, que não estão nas casas de alto padrão.

Elas fazem programas em uma boate da rua Augusta que cobra R$ 20 de entrada. Ali, oficialmente, ninguém fala sobre balanços, lucro ou prejuízos –embora este último seja mais evidente.

Ao todo, são 12 mulheres naquele horário no local. Durante uma hora, três homens passam pela porta.

Um deles dá meia volta após 20 minutos de incertezas. Mal chega, o segundo se atraca com uma loira.

Bêbado, o terceiro se escora no canto do salão.

Fernanda é do interior e dorme no quarto em que trabalha. Está há cinco meses desempregada. Recebia R$ 900 por mês. “Perdi o emprego, procurei e não consegui achar. Tenho uma filha para sustentar, caí na noite”, diz.

Bia é da zona norte. Demitida em fevereiro de uma loja, diz que procura por emprego e que relutou antes de entrar na boate. Para estar ali, precisou driblar as perguntas e a desconfiança do marido.

Não é o único cuidado que ela deve tomar. No Brasil, a prostituição não é crime, mas explorá-la, sim. Cida Vieira, presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais, diz que as mulheres não devem se submeter a condições degradantes como a obrigação de morar no trabalho.

Bia e Fernanda têm filhos e contas atrasadas. A nova profissão não está ajudando a superar o período de vacas magérrimas. “Somos o supérfluo do supérfluo”, diz Armando Gabriel, 63, gerente do Teatro Orion, na rua Aurora, no centro. “O reflexo foi de 60% a menos de faturamento.”

Em uma das noites em que a reportagem esteve no local, 80 clientes assistiam ao striptease de Britney Bitch, atriz pornô que termina suas apresentações com uma sessão de sexo grupal com a platéia.

“Numa época normal, isso aqui estaria jorrando homem pela porta. Hoje, não passa disso”, desabafa Gabriel.

CONCORRÊNCIA

Nem só a crise econômica afeta os negócios da noite. Há também a farta oferta de garotas de programa na internet. A crise, porém, se mostra de outra forma na rede.

Demitidas quase no mesmo mês, Manu e Carol passaram a atender juntas. “Fomos pegas pela crise. Trabalhávamos em escritório e acabamos dispensadas”, afirma Manu.

A nova empreitada rende muito menos do que Rebeca contabiliza no fim do mês, mas está bem além da realidade das garotas da Augusta.

Da segunda vez que a Folha encontrou Fernanda, ela comemorava. Acabara de voltar de 15 dias de programas em Florianópolis (SC) com R$ 750. “Para quem estava sem fazer nada e ganhava R$ 900 por mês, foi bom”, disse.

Na última quinta (25), após um mês, a reportagem reencontrou Bia. Era sua 15ª noite na boate. Agora separada, não precisa mais mentir para o marido. Mais relaxada e descontraída nos braços de um cliente, ela diz estar bem.

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