08/11/2015

13:04

Por: Alberto Silva

“Virei um leproso, as pessoas fugiam de mim e continuam fugindo” diz delator da lava-jato ao sair da cadeia

Sem a barba esbranquiçada que lhe dava um ar de náufrago e com o cabelo curtíssimo, como um militar da Segunda Guerra, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa parece um homem novo: perdeu o ar arisco de quem nunca imaginara ser apanhado e passou mais de cinco meses preso na Polícia Federal em Curitiba (PR) e um ano em prisão domiciliar no Rio de Janeiro (RJ).

A mudança de humores tem uma razão. Desde 8 de outubro, ele cumpre regime semiaberto e pode sair de casa das 6h às 20h, de segunda a sexta. Parece uma maravilha, mas não está sendo fácil, segundo ele. Nesse primeiro mês, ele foi até a farmácia em Itaipava, o distrito de Petrópolis onde mora, almoçou num restaurante, no qual sentou de costas para a porta com boné e óculos escuros, e desceu até o Rio para renovar a carteira de habilitação, que venceu na prisão.

“Virei um leproso. Esse ano de prisão foi um ano de lepra. As pessoas fugiam de mim e continuam fugindo, mas isso está mudando”, diz em entrevista àFolha, a sua primeira após deixar a prisão, em setembro do ano passado. Ele se refere ao sumiço dos amigos, que se encontravam praticamente toda semana na casa da Barra da Tijuca (zona sul do Rio), para jogar buraco.

A principal mudança que Costa notou nos últimos dias é que os gritos de “bandido!”, que ouvia ao pegar um avião, são cada vez mais rarefeitos e estão crescendo manifestações de apoio ao acordo de delação que fechou com os procuradores e a PF na Operação Lava Jato. “As pessoas dizem: ‘Parabéns! Muito bem! Você entregou os políticos!'”.

É essa montanha-russa de sensações, misturada com a história de sua vida pré e pós-corrupção, que ele começou a relatar em letra miúda, num caderno espiral, que pretende publicar em livro. “Vou deixar claro no livro que errei”, afirma.

Lentamente, Costa começa a deixar a casa de montanha onde vive com autorização judicial, um imóvel de classe média com quatro quartos num condomínio fechado. “A simples compra de um pão na padaria virou um grande prazer. Ir na farmácia é uma alegria”, conta, rindo.

A tornozeleira eletrônica, no entanto, presa na perna esquerda e protegida por uma meia branca, continuará com ele até outubro de 2016.

A DELAÇÃO

Costa fechou o primeiro acordo de delação da Operação Lava Jato, em agosto do ano passado, entregou quem pagava propina, quem fazia os acertos do cartel que agia na Petrobras e devolveu US$ 25,8 milhões que recebera de propina na Suíça e nas ilhas Cayman, além de cerca de R$ 10 milhões em dinheiro e bens que comprara com recursos de suborno.

“Sem a minha delação, a Lava Jato não teria existido”, diz. O acordo de Costa forçou o doleiro Alberto Youssef a seguir o mesmo caminho, gerou uma sucessão de delações e transformou a Lava Jato na maior investigação sobre corrupção no país. Já são 35 delações, e o número deve subir.

“Fechei a delação por orientação da minha família, a coisa mais valiosa que tenho hoje”, conta, sem confirmar que os policiais ameaçaram prender suas filhas, mulher e genros, beneficiários de contas na Suíça.

A gênese dos problemas da Petrobras, segundo ele, é a indicação política para cargos de diretoria e o sistema de financiamento de campanhas eleitorais. O diretor indicado, diz, tem de pagar um pedágio ao partido que o indicou e isso faz com que o executivo leve a corrupção para o interior dos negócios da estatal.

Ele refuta, no entanto, que os preços eram superfaturados ou que a Petrobras fez obras desnecessárias. “Posso provar para qualquer um que a refinaria do Nordeste [Abreu e Lima] foi um ótimo negócio. O erro é julgar a refinaria com olhos de hoje, com o dólar altíssimo e o preço do barril de petróleo lá no chão”. O problema da refinaria, para ele, é que não havia um projeto detalhado, o que elevou as estimativas iniciais de custos, de US$ 3,5 bilhões para US$ 20 bilhões.

“Não acredito em desvio de R$ 6 bilhões”, diz, referindo-se à cifra que a Petrobras colocou em seu balanço de 2012. “Dá uns R$ 3 bilhões no máximo. A Petrobras não pode misturar queda do preço do petróleo, aumento do dólar e desvio de dinheiro”.

Costa diz que a Lava Jato causou um grande problema de imagem para a Petrobras, mas alfineta: “A defasagem do preço do combustível é dez vezes maior do que os desvios da Lava Jato. A defasagem provocou um rombo de US$ 60 bilhões, US$ 80 bilhões. A Lava Jato não chega a 5% disso. O problema da Petrobras é que a companhia não tem caixa. E isso veio da defasagem de preço ou da Lava Jato? É uma conta muito fácil de ser feita. Levei esse problema [da defasagem de preço] mais de dez vezes ao conselho da Petrobras até 2012, mas nunca fui ouvido”.

O TÉCNICO

Engenheiro mecânico formado na Universidade Federal do Paraná, Costa entrou em 1977 na Petrobras por meio de concurso, fez um curso de um ano na própria companhia sobre exploração de petróleo em alto-mar com outros 19 profissionais e foi para Vitória (ES) por vislumbrar que a área cresceria.

“Trabalhei 27 anos na Petrobras sem influência política”, diz. “O único político que conhecia até 2004 era o prefeito de Macaé [base no litoral fluminense para a exploração da bacia de Campos]. Até hoje não sei quem indicou o meu nome para o José Janene”, diz, referindo-se ao político do PP que colocou-o na diretoria de Abastecimento da Petrobras, na qual comandava 20 mil funcionários, com a condição de que arrecadasse recursos para o partido.

Ele gaba-se da bacia de Campos, da qual foi gerente. Quando chegou a Vitória (ES), no seu primeiro posto na Petrobras, em 13 de agosto de 1978, a área produzia 10 mil barris por dia. Quando deixou o cargo de gerente de Campos, em 1995, a produção havia se multiplicado e atingira os 50 mil barris ao dia.

Costa quer relativizar no livro que escreve o período em que recebeu cerca de R$ 95 milhões de propina, em valores atuais. “Não foram só oito anos de bandidagem”, afirma, e desata a falar do que chama de suas “conquistas”. Diz, entre outros pontos, que foi ele o responsável por ter elevado a qualidade dos processos na diretoria de Abastecimento, o que culminou com uma conquista que a Petrobras nunca havia obtido, o Prêmio Nacional de Qualidade.

A QUASE MORTE

“Não aguento esses políticos. Vou largar esse mundo!”. O desabafo de Costa, segundo sua mulher, Marici, ocorreu à época em que ele quase morreu, em 2006, em consequência de uma pneumonia e uma malária que pegou ao visitar uma refinaria na Índia. Marici diz que tinha certeza que o marido não sairia da CTI (Centro de Terapia Intensiva), onde ficou 15 dias em coma induzido.

A Petrobras levou de São Paulo para o Rio o infectologista David Uip, que reuniu a família e contou que as chances de sobrevivência de Costa não passavam de 5%.

Ele sobreviveu, sua mulher implorava que ele largasse os políticos, mas ele se aprofundou ainda mais no jogo. Como tentaram derrubá-lo do cargo no período da doença, buscou apoio no PMDB para continuar na diretoria de Abastecimento. Conseguiu.

A PRISÃO

Costa foi preso pela primeira vez em 20 de março do ano passado, três dias após a Lava Jato ter sido desencadeada. No dia 17, a Polícia Federal fizera buscas em sua casa, mas não havia ordem de prisão. A ordem veio quando a PF notou que parentes de Costa retiraram documentos de um escritório que mantinha na região da Barra.

“Foi o pior dia da minha vida. Quando fecharam a porta da cela, eu achei que estava dentro de um pesadelo, que aquilo não estava acontecendo comigo”, afirma, sobre a sua entrada na custódia da PF em Curitiba (PR).
Na PF, até que a vida era tranquila, segundo ele. “A grande parte dos presos era traficante. A gente pegava a quentinha [refeição], sentava no chão e comia conversando com os traficantes”.

A pior parte do período em que ficou preso, segundo ele, foi quando o juiz Sergio Moro autorizou a sua transferência para um presídio estadual, em Curitiba (PR). “Foi um inferno. Teve até tentativa de extorsão.”

Após quatro dias, a diretora do presídio pediu a sua transferência sob alegação de que não tinha condições de oferecer segurança ao ex-diretor da Petrobras.

Costa foi solto pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2014 e voltou a ser preso no mês seguinte, quando a Suíça informou que ele tinha contas secretas no país, o que ele negara até então.

O VÔMITO

“Contar essa história é muito importante para mim”, diz Costa sobre o livro que começou a escrever, já com 70 páginas. “Eu queria registrar alternativas e soluções para que isso não volte a acontecer. Estou colocando com clareza que errei”.

“É como se o Paulo estivesse vomitando, limpando o corpo”, diz Marici. A lepra, para ela, está cicatrizando.

(Via Folha e agências)

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