12/12/2015

12:39

Por: Alberto Silva

“Vai faltar cadeia no Brasil ” Áudios revelam que parlamentares recebiam gasolina e dinheiro de cartel de combustível no DF

Parlamentares Hélio José, Izalci Lucas, Raimundo Ribeiro e Celina Leão são citados em ligações telefônicas, grampeadas pela Polícia Federal

Ouça os audios aqui, deputados e senadores pediram dinheiro e gasolina para integrante do suposto cartel de postos de combustível no Distrito Federal, segundo ligações interceptadas na Operação Dubai e obtidas porÉPOCA. A investigação, conduzida pelo Ministério Público, pelaPolícia Federal e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), apontou chamadas telefônicas realizadas entre Antonio Matias, sócio da rede Cascol, e os assessores do senador Hélio José (PMB-DF), do deputado federal Izalci Lucas (PSDB-DF) e o deputado distrital Raimundo Ribeiro (PSDB). Além desses parlamentares, o nome da deputada distrital Celina Leão (PDT-DF) também foi citado. Em uma dessas conversas, no dia 2 de outubro de 2015, o empresário conversa com o seu assistente, identificado como Rivelino, e pede para que o funcionário compre um cupom de R$ 1 mil em gasolina e entregue para Celina Leão.

ANTÔNIO MATIAS: É, tem R$ 1.000,00 pra comprar de gasolina?
Tem, tem.
ANTÔNIO MATIAS: Então, você compra de gasolina e manda lá pra, pra Celina Leão, fala pra ela buscar aí, tá! Tá bom?
RIVELINO: R$ 990,00 ou R$ 1.020,00?
ANTÔNIO MATIAS: R$ 1.020,00.
RIVELINO: Tá bom. Sim, senhor!
ANTÔNIO MATIAS: Põe num envelope porque aquele outro eu mandei pra, “pro” Raimundo Ribeiro e outro pra, pro senador Hélio, tá? Tá bom?
RIVELINO: Então, tá bom. Sim, senhor. Sim, senhor. Agora.

Três horas depois, Antonio Matias recebe outra ligação. Do outro lado da linha, uma pessoa se apresenta como Mayone, da “assessoria do deputado Izalci” e negocia pegar “tickets”, que são trocados por combustível.

MAYONE: Doutor Antônio Matias? Tudo bem, meu amigo?
ANTÔNIO MATIAS: Tudo bem.
MAYONE: É Mayone, da assessoria da deputado Izalci. É que nós fizemos a previsão de pegar uns tickets hoje né. Mas a menina saiu um pouco mais cedo e nós não conseguimos pegar com ela. E a gente precisava disso amanhã. Aí, eu conversei com ela e ela falou: pra eu ir pegar esses tickets, eu preciso de autorização dos meus diretores e, e, eu não trabalho no sábado e eu teria que vir só para fazer essa operação. Então, teria que falar com o Antônio Matias para que pudesse fazer essa operação.
(…)
ANTÔNIO MATIAS: Ok Mayone. Vou ligar na menina e se tiver jeito vamos resolver para vocês.
MAYONE: Nós precisamos mesmo, seu Antônio Matias. É porque essa operação nós vamos realizar já esse final de semana e como ela disse que não trabalhava ela precisava da sua operação para ir lá amanhã cedo e operacionar.
ANTÔNIO MATIAS: Tá, tá. Vou ver aqui tá.
MAYONE: Obrigado seu Antônio Matias, muito obrigado pela atenção.

Dez minutos depois, em outra chamada telefônica, Matias conversa com um interlocutor identificado como “Elsinho”. Na ligação, o empresário menciona que o PSDB queria pegar R$ 15 mil em gasolina no dia seguinte.

ANTÔNIO MATIAS: O, o PSDB pediu pra, pra ver como é que pegava, é, 15 mil reais de gasolina amanhã, né.
ELSINHO: Ahn.
ANTÔNIO MATIAS: Já tinha, ele já tinha falado com a Viviane. E a Viviane falou que se, se eu autorizasse ele, ele, ela ia.
ELSINHO: Ela iria lá?
ANTÔNIO MATIAS: Aí, eu liguei pra ela agora, disse que ia, se…
ELSINHO: Ahn, hum.
ANTÔNIO MATIAS: Aí, eu “autorizei ela” a ir de manhã cedo, 09:00 h pra lá que eles vão botar 15 mil, 15 mil reais.
ELSINHO: 15 mil reais. Tá bom. Tá jóia.
ANTÔNIO MATIAS: Tá bom?
ELSINHO: Se precisar de alguma coisa você me liga.
ANTÔNIO MATIAS: Então, tá. Obrigado, viu.
ELSINHO: De nada.
ANTÔNIO MATIAS: Tchau.

De acordo com a representação da Polícia Federal, o cartel de combustível possuía “imensos contatos políticos”. “Apesar de estarmos em um ano sem eleições, diversos políticos e partidos fizeram pedidos de dinheiro e de combustível a Antônio Matias, por exemplo, como comprovam ligações telefônicas monitoradas”, diz o documento.

A operação Dubai identificou o esquema de cartel no mercado de combustíveis no Distrito Federal. As investigações revelaram diversas combinações entre supostos concorrentes e a constante articulação entre as distribuidoras e postos de revenda. Segundo a PF,  a Rede Cascol, de Antonio Matias, é um concorrente muito maior e mais influente do que todos os demais. A rede tem cerca de 30% (95 dos 312) dos postos e cerca de 50% do volume de combustíveis vendidos no DF. O segundo maior concorrente possui apenas 15 posto. “Por isso, ela possui um poder econômico e político muito superior aos demais atores. O cartel se configura no padrão líder-seguidor: há um ator principal que define o preço e os demais seguem esse valor”, diz a representação da PF. A Cascol, que tem contratos com a BR Distribuidora, da Petrobras, vende 1,1 milhão de reais em litros de combustível por dia, o que dá um lucro diário de quase R$ 800 mil com o esquema.

Procurado, o senador Hélio José disse em nota: “Nunca tive, não tenho e nunca terei envolvimento com o suposto cartel de combustível no Distrito Federal. E jamais autorizei qualquer funcionário a tratar desses assuntos em meu nome”. O deputado Izalci Lucas disse que costuma comprar tíquetes de gasolina, com cartelas de R$ 30, para distribuir em sua empresa e familiares. De acordo com o parlamentar, ele compra os tíquetes com frequência, e não houve doações por parte de Matias. A ligação, segundo Izalci, ocorreu porque seu funcionário teve dificuldades em pegar os papeis no fim do experiente. Izalci afirma ainda que compra com seu dinheiro, e não com verba de gabinete. “Nunca pedi nada. Tenho nota fiscal em meu nome, com meu cheque”, disse. A deputada Celina Leão afirmou: “Nunca pedi e nunca recebi gasolina ou qualquer tíquete. Conheço o empresário Antonio Matias. Ele está presente em vários eventos políticos. É uma pessoa muito influente. Mas só tive relação institucional com ele”. Procurados, o deputado Raimundo Ribeiro e o PSDB não retornaram. O advogado Marcelo Bessa, que defende Antonio Matias, não quis comentar.

(Via Epoca e agências)

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