04/09/2016

23:30

Por: Alberto Silva

Diário de Eduardo Cunha – Os dias de pobreza

Hoje, o Rojas veio almoçar em casa. Comemos ovo pochê com purê de abobrinha. Eu, contudo, estava desanimado demais para conversar.

Oh, Deus, a Justiça Federal bloqueou os meus bens! A decisão alcançou, ainda, as contas da Claudinha. O que faremos? De novo, como tantas vezes na vida, eu me deparo com o limite da minha fé cristã. Um juizinho federal da 6ª Vara Cível de Curitiba despertou em mim o cético adormecido na Copa 1998. Que desespero!

18 de junho

Hoje, o Rojas veio almoçar em casa. Comemos ovo pochê com purê de abobrinha. Eu, contudo, estava desanimado demais para conversar. Que eu não falasse, que mal conseguisse rir de suas piadas classistas, deixou preocupado meu amigo advogado. O tempo todo, eu só olhava o faqueiro de prata e pensava comigo como faria para terminar de pagá-lo.

O Rojas me perguntou por que é que eu não renuncio e presto concurso para escriturário do Banco do Brasil. Como pai e provedor de uma esposa que consome um bocado de dinheiro, não parece má ideia. Em essência, meu pensamento é o de que, onde quer que haja dinheiro, o homem deve sempre persegui-lo, sem se preocupar demais com a procedência.

23 de junho

Este não é o lugar mais apropriado para contar como, por fim, consegui arrumar 25 mil; dinheiro do qual eu, atolado em dívidas, necessitava com urgência para sobreviver ao fim de semana.

29 de junho

A Claudinha e eu matamos o tempo jogando buraco. Ela evitou fazer qualquer comentário durante o dia. Pela primeira vez, desde que nos casamos, sinto que não consigo interpretar a fisionomia dela. Aquele silêncio me mata; seus olhos esgazeados me corroem por dentro.

06 de julho

Hoje jantamos risoto de alho poró, mas sem arroz arbóreo nem parmesão. Isto é quase anorexia. Sem coragem de ligar a TV, passei horas deitado no sofá, como se meu corpo tivesse se recuperando de uma dengue. Sinto-me mal, como jamais havia me sentido na vida.

09 de julho

Já não há croissants no café-da-manhã, só pão de forma. Não há biscoitos de manteiga, só Cream Cracker. Não há capuccinos, só café solúvel. Foie gras agora é patê de frango. O NET Combo agora é o Plano Essencial. Louis Vuitton agora é Zara. Julgo que, pelo vocabulário midiático, isto é o que chamam de classe média.

20 de julho

Até nas pequenas coisas se nota a decadência. O cineminha, por exemplo, era sagrado todo fim de semana. Desde o bloqueio de bens, no entanto, que a rotina é aproveitar as promoções de quarta-feira. Isto destrói o ego de qualquer um.

31 de julho

O Rojas me perguntou por que é que eu não renuncio e presto concurso para escriturário do Banco do Brasil. Como pai e provedor de uma esposa que consome um bocado de dinheiro, não parece má ideia. Em essência, meu pensamento é o de que, onde quer que haja dinheiro, o homem deve sempre persegui-lo, sem se preocupar demais com a procedência.

11 de agosto

Estou há várias noites sem dormir. Não sinto coisa nenhuma. Mal me mexo na cama. Tenho a sensação de que, a qualquer momento, eles baterão à porta.

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