06/06/2016

12:25

Por: Alberto Silva

A menos de três meses da abertura da Rio-2016, morro do Alemão comanda a cidade, ao lado do complexo olímpico, derrota da pacificação

Em maio, sete pessoas foram feridas a bala e duas outras morreram: uma moradora e um policial militar.

A menos de três meses da abertura da Rio-2016, o Alemão –às margens de uma das principais vias do trajeto olímpico, a Linha Amarela– está longe de ser área pacificada, apesar de contar com quatro UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora).

Políticos, ONGs e artistas de Hollywood subiram o morro para celebrar a ocupação das comunidades pelos militares em 2010. A região virou até cenário de novela da Globo em horário nobre.

Moradores são obrigados a conviver com tiroteios frequentes e toque de recolher do tráfico, dominado pelo Comando Vermelho.

A violência continua pela presença de marginais, que ainda não conseguimos desestruturar totalmente." Apesar do alto número de vítimas na comunidade, Silva disse à reportagem daFolha que "o projeto [das UPPs] trabalha com operações planejadas, buscando o menor confronto

Em maio, sete pessoas foram feridas a bala e duas outras morreram: uma moradora e um policial militar.

Na tarde do domingo (22), uma mulher de 21 anos foi atingida por dois tiros na perna ao descer de um ônibus próximo à Grota, uma das comunidades mais povoadas.

Segundo a ONG Voz das Comunidades, formada no complexo, oito mortes foram registradas na região desde o início do ano –sete de moradores e um de um policial.

Além dos mortos, outras 20 pessoas ficaram feridas: 13 moradores e sete militares.

DOMÍNIO DO TRÁFICO

Os traficantes do Comando Vermelho, que haviam sido expulsos durante a ocupação em 2010 -em uma cena célebre, na qual foram filmados correndo em fuga-, retomaram o comércio de drogas nas favelas locais e agora aproveitam-se da crise financeira que atingiu o Estado e a Secretaria de Segurança para acirrar os confrontos.

Eles dominam as regiões distantes das cinco estações do teleférico, onde funcionam postos policiais, e montam barricadas no complexo.

A Folha constatou a instalação de barras de ferro e latões metálicos recheados de cimento. A intenção é impedir a entrada de carros da polícia em pelo menos duas comunidades, Areal e Casinhas.

Moradores se recusam a falar publicamente sobre a violência ali. Mas, nas redes sociais, é possível encontrar postagens quase diárias de fotos e vídeos mostrando confrontos entre PMs e bandidos.

Até nos bairros vizinhos ao Alemão, os moradores mudaram seus hábitos. Voltaram a ficar reclusos em casa. “O Alemão está melhor do que antes da criação das UPPs, mas a violência não saiu de lá. O pior é a ideia da derrota deste projeto de pacificação. A cidade fica com a sensação de que nada dá certo”, diz a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes).

A violência também reduziu a atividade econômica na região. Nos últimos anos, bancos fecharam suas agências –apenas duas instituições permanecem no complexo- e lojas também encerraram as atividades.

“As notícias dos confrontos atrapalharam muito o movimento. Tive uma queda de 40% no faturamento”, afirmou Marcelo Ramos, 41, dono do Bistrô Estação R&R, na Nova Brasília, uma das comunidades do complexo.

O estabelecimento foi aberto em 2012. Em 2015, Ramos lançou uma cerveja especial, a Complexo do Alemão Lager.

“A esperança é que os Jogos Olímpicos tragam paz para a região e os visitantes voltem a aparecer”, disse Ramos, que reformou uma Kombi para vender seu produto em uma das estações do teleférico do complexo em agosto, mês de abertura dos Jogos.

OUTRO LADO

Comandante do projeto das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), o coronel André Silva disse que a pacificação do Complexo do Alemão é “um processo lento e difícil, que não se consolida do dia para a noite”.

O militar confirmou a presença de traficantes na região e culpou a crise econômica pela violência na área.

“O projeto de pacificação é relativamente novo, seis anos. Não se consegue mudar rapidamente um quadro de violência, de falta de coisas básicas de décadas”, afirmou o coronel.

“A violência continua pela presença de marginais, que ainda não conseguimos desestruturar totalmente.”
Apesar do alto número de vítimas na comunidade, Silva disse à reportagem daFolha que “o projeto [das UPPs] trabalha com operações planejadas, buscando o menor confronto”.

“Não podemos descartar que o Brasil e o Estado passam por momentos difíceis, com forte desemprego. E isso tem relação direta com práticas criminosas”, afirmou o coronel da Polícia Militar.

REFLEXO

A crise econômica do Estado se refletiu na segurança.

Além do atraso no pagamento dos policiais, o governo admitiu em março que os investimentos ficaram reduzidos a “praticamente zero” depois do corte de 35% no orçamento da pasta.

No dia 19, o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, anunciou que pedirá ao governo federal o reforço das Forças Armadas para atuar nas ruas da capital fluminense durante os Jogos Olímpicos.

A ideia do governo estadual é que os militares fiquem nas ruas, nos acessos às comunidades do Rio de Janeiro, impedindo assim o tráfego de traficantes.

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